Física

Manual de como melhorar a sua vida cotidiana em 9 passos

Todos os dias, participamos de centenas de interações que parecem insignificantes. A conversa no café, o almoço com colegas, o cumprimento no elevador. Quase nunca pensamos a respeito, não é? Não se sinta mal. Apesar da falta de reflexão que dedicamos a esses encontros cotidianos, muitos pesquisadores tratam o assunto a sério. Para eles, até mesmo os “olás” mais breves podem ter efeitos significativos no que pensamos e sentimos e na maneira como nos comportamos.

 

Os psicólogos sociais estão no batalhão da frente da teoria. Depois de explorarem diversas atividades cotidianas, eles reuniram evidências que indicam que podemos ter uma vida bem melhor se dermos mais atenção aos atos prosaicos. Afirmam que se aplicarmos uma série de informações de estudos recentes aos pequenos desafios, podemos reduzir bastante nosso estresse e obtermos mais sucesso.

 

A chave está nos encontros sociais bem-sucedidos. Segundo os estudos, devemos criar um espaço para o ponto de vista do respondente — ou até mesmo o antecipar. Isso significa que se queremos alguma coisa de outra pessoa (amizade, aceitação, perdão), precisamos considerar sua mentalidade em nossos pedidos. A seguir, algumas dicas valiosas que a ciência comportamental ensina para melhorar sua convivência com os outros.

 

1 COMO OBTER UMA RESPOSTA HONESTA

Você vai comprar um carro usado, mudar de apartamento ou determinar qual médico deve tratá-lo. São nesses momentos que você precisa ir direto ao cerne da questão. Fazer perguntas genéricas não gera informações úteis e pode levar a respostas enganosas, diz Julia Minson, pesquisadora de Ciências da Decisão da Universidade da Pensilvânia. Melhor apostar em sondagens que partem do princípio de que há problemas. Digamos que alguém está vendendo um iPod usado. Uma pergunta genérica seria “o que você pode me dizer sobre ele?” Uma pergunta de premissa positiva seria “ele não tem nenhum problema, certo?”, mas uma pergunta de premissa negativa, como “quais problemas você teve com ele?”, obtém a resposta mais honesta, segundo o estudo de Minson e Maurice Schweitzer. Em uma pesquisa que avaliou interações diante de vendas falsas, 87% dos vendedores alertaram o comprador sobre problemas quando este utilizou uma pergunta de premissa negativa, versus 59% daqueles respondendo a uma pergunta de premissa positiva e 10% de quem respondia a uma pergunta genérica.

Quando quiser ouvir a verdade e nada mais que a verdade, nua e crua, você precisa perguntar por ela. Dependendo da situação, para obter a resposta mais honesta, pode ser preciso adicionar uma oferta de confidencialidade.

 

2 APRENDENDO A CRITICAR

Ninguém gosta de ouvir que fez algo errado, e é por isso que mesmo as “críticas construtivas” são recebidas com uma postura defensiva. Assim, a psicóloga Susan Heitler recomenda feedback que “pula a fase da reclamação e vai direto às explicações”. Vamos a um exemplo cotidiano, de cozinha.  Ao observar alguém preparar um almoço de maneira pouco eficaz, em vez de dizer “não é assim que se frita na manteiga, as batatas vão ficar secas”, ofereça dicas úteis. Prefira algo como: “Se você começar com uma frigideira quente, vai ser mais fácil perceber quando as batatas estão prontas…”, e por aí vai. Para os pais, a mesma abordagem se aplica ao trabalho doméstico e aos deveres. Escolha frases encorajadoras, não ordens ríspidas, aconselha Heitler. “Diga o que você gostaria que seu filho fizesse em vez de apontar o que fez de errado.” As críticas são o fator mais determinante na percepção dos filhos sobre a relação com os pais. É importante oferecer críticas sem depreciar ou humilhar. Há cada vez mais evidências de que as críticas podem ser prejudiciais a todos os relacionamentos e à saúde mental do indivíduo. Os seres humanos são criaturas sociais e a maneira como nos expressamos pode ser muito poderosa. Tomar cuidado com o modo como expressamos uma ideia é um jeito de honrar e proteger os relacionamentos.

 

3 MANUAL DO ELOGIO SINCERO

Um belo elogio pode ser um motivador poderoso, mas apenas se você ressaltar as qualidades certas. Elogiar a capacidade de alguém se esforçar funciona melhor do que simplesmente exaltar seu brilhantismo. Pesquisas mostram que crianças elogiadas por sua inteligência se esforçam menos em tarefas futuras. Louvar a inteligência produz a crença de que tudo deve ser natural e, quando isso não acontece, as crianças pensam que não são mais espertas, ou então escolhem o caminho mais fácil para que não descubram que são “fraudes”. Segundo a psicóloga Heidi Grant Halvorson, diretora associada do Motivation Science Center da Universidade de Colúmbia, o ideal seria ajudar a pessoa a pensar positivamente — e com realismo — sobre alcançar seus objetivos ao mesmo tempo que se elogia seu esforço. Quando são elogiados por sua persistência, aqueles que acreditam que o caminho pela frente será difícil se esforçam mais. O modo como o elogio é apresentado conta tanto quanto o elemento sendo enaltecido. A exaltação deve ser específica e sincera. Além disso, deve ser oferecida generosamente, em especial no escritório. Os trabalhadores que foram solicitados a aprender uma tarefa foram melhores sucedidos depois de terem sido elogiados no início da nova atividade, conforme constatou uma pesquisa realizada no Japão. Para o cérebro humano, receber um elogio é uma recompensa social tão válida quanto ganhar dinheiro.

 

4 COMO PEDIR A UM AMIGO QUE BEBA OU COMA MENOS

Expressar preocupação com o consumo de álcool ou comida de um amigo é uma conversa ultradelicada. As conversas mais eficazes começam com a empatia ativa, afirma William Miller, professor emérito de psicologia e psiquiatria da Universidade do Novo México. O confronto leva apenas à negação. Junto do colega Stephen Rollnick, Miller descobriu que é essencial trabalhar a motivação intrínseca da pessoa. As técnicas de conversação incluem fazer perguntas abertas (“o que você acha da sua saúde atual?”, “que tipos de atividades você gosta que não envolvem comer/beber?”), oferecer afirmações (“parece que você gostaria de melhorar o autocontrole”), usar escuta reflexiva e formular frases de resumo. Um componente essencial do incremento motivacional é ajudar a pessoa a reconhecer a diferença entre o que ela diz que deseja da vida e o modo em que vive hoje: “De que maneiras beber todas as noites interfere com outras coisas que você gostaria de fazer?” A pergunta permite que a pessoa elabore suas próprias soluções e também suas próprias motivações.

 

5 TENHA O PODER DA PERSUASÃO

O clima político polarizado sugere que é impossível convencer os outros, pois todos já estão decididos. Mas se isso fosse verdade, todosos vendedores, advogados e terapeutas estariam desempregados. Na verdade, muitos de nós persuadimos os outros em nosso cotidiano, convencendo-os a comprar bens e serviços que ignorariam em condições normais. Quando quiser mudar o humor, a ideia ou a disposição de uma pessoa, não se pergunte “como posso ganhar essa discussão?” Em vez disso, pergunte-se “como posso fazer com que ele concorde comigo sem irritá-lo?” É isso que ensina Jay Heinrichs, especialista em retórica e autor de livros sobre o assunto. “Nunca discuta o indiscutível”, afirma. “Em vez disso, concentre-se nos objetivos.” Controle o clima com volume, tom e histórias. Fique atento aos momentos persuasíveis. E, acima de tudo, conquiste o acordo e seja agradável: expresse semelhanças e valores compartilhados. Mostre ao seu interlocutor que está cuidando dos interesses dele também, não apenas de seu próprio.

 

6  BONS MODOS DE ACEITAR ELOGIOS

Quando a pergunta é “qual a resposta adequada para um elogio?”, a resposta quase sempre é “dizer ‘obrigado’”. Na verdade, ao receber um elogio, apenas um terço das pessoas o aceitam com tanta simplicidade e harmonia, revela o linguista Robert Herbert, da Binghamton University. E não, as mulheres não são piores do que os homens em aceitar elogios. É o gênero de quem transmite a mensagem que mais influencia a resposta. Ambos os sexos têm maior probabilidade de aceitar um elogio dado por um homem do que por uma mulher. Quando um homem diz “bonito xale”, a mulher tende a responder de maneira afirmativa: “obrigado, minha irmã tricotou para mim”. Mas quando uma mulher diz para outra sobre o “moletom lindo!”, a resposta mais provável é contestar: “Estava em promoção no mercado e nem tinham a cor que eu queria”. Uma resposta como essa, cujo objetivo é fazer com que a elogiadora ache que a elogiada não é orgulhosa, só faz com que a primeira se sinta deslocada ou invalidada. Segundo Herbert, o melhor é fazer um comentário relevante relacionado (“Obrigado, tambémé meu favorito”). Mas nada supera um sorriso, olhar o elogiador nos olhos e dizer “obrigado”.

 

7 COMO JOGAR CONVERSA FORA

“Só porque você salta de uma bateria dando uma voadora enquanto toca um riff de guitarra faz que todos esperem que você seja extrovertido socialmente”, conta Alex Kapranos, líder da banda indie Franz Ferdinand. “Mas não fico à vontade com a ideia de jogar conversa fora em uma festa.” Kapranos não está só: 40% da população se encaixa nessa categoria, observa Bernardo Carducci, diretor do ShynessResearchInstitute na Indiana UniversitySoutheast. Carducci considera jogar conversa fora a “pedra fundamental da civilidade”, pois abre caminho para conversas maiores. Ele sugere que você busque um objeto ou atue como anfitrião, apresentando as pessoas umas às outras. Como tudo mais, as conversas superficiais vão ficando mais fáceis à medida que você participa de mais delas. Comece com as pessoas que estão levando seus cachorros para passear na vizinhança, passe para reuniõezinhas e logo você conseguirá animar o escritório. Carducci tem cinco regras fundamentais: seja simpático; mantenha suas falas de abertura simples e pense em sua apresentação de antemão (seu nome e informações sobre si mesmo que podem dar início à conversa depois); junte-se a conversas no meio, estendendo ou ampliando o tema da discussão ou introduzindo novos tópicos, possivelmente usando notícias recentes; encerre dizendo “preciso conversar com Fulano, mas foi um prazer conhecê-lo”; e resuma a conversa para que seu interlocutor saiba que você estava prestando atenção nele. Não cometa o erro de falar do mesmo assunto por muito tempo. A conversa não é “jogada fora” por acaso. Imagine que é um aperitivo de conversa, com cada tópico a ser apenas experimentado e saboreado.

 

8 SAIBA PEDIR DESCULPAS

As palavras que você usa quando pede desculpas são menos importantes do que o ato de se desculpar. É o que diz o psicólogo social Steven Scher, da Eastern Illinois University. Ele identificou os cinco elementos principais dos pedidos de desculpas: uma expressão de arrependimento (“desculpa”, “foi mal”); uma explicação ou narrativa da causa que levou à violação (“esqueci de ligar com as informações”); uma expressão da responsabilidade do falante pela ofensa (“o que fiz foi errado”); uma promessa de clemência (“nunca vai acontecer de novo”); e oferta de consertar a situação (“tem como compensar o que fiz?”). Todos os pedidos parecem aumentar a designação de culpa, mas tendem também a reduzir as sanções contra o transgressor e as avaliações negativas dele. A maioria dos pedidos reduz a raiva da vítima, apesar desse efeito variar com o nível da ofensa. As mulheres pedem desculpas com mais frequência do que os homens, sim. Não pelos motivos que você imagina, contam os psicólogos sociais Karina Schumann e Michael Ross, da Universityof Waterloo em Ontário, Canadá. “Homens pedem desculpas com menos frequência que as mulheres porque têm um limite mais elevado do que constitui um comportamento ofensivo.”

 

9 RECLAME SEM PERDER A COMPOSTURA

Uma reclamação de sucesso se resume a ser simpático e nunca aceitar menos do que você acredita ser justo. Primeiro, determine o que você quer como compensação e descubra quem tem a capacidade de atendê-lo. Comece com algo agradável (“este é um dos meus restaurantes favoritos”) para impedir que o alvo da reclamação se sinta atacado. A seguir, faça a reclamação ou pedido: “Mas hoje meu pão estava queimado. Você podia trazer outro, mais macio?” E depois complete com uma afirmação de sua gratidão pela ajuda recebida.

 

Texto publicado em fevereiro de 2014 pela revista Galileu

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