Profissional

Do que são feitas as lágrimas de um atleta?

Estamos em época de Olimpíadas em nosso país e uma coisa é peculiar de se notar em cada atleta que sobe ou não ao pódio. Eles choram. Existem muitos detalhes que não nos damos conta sobre a rotina deles até estarem ali, diante dos holofotes do mundo inteiro para mostrar o melhor de si. Enumerei os 5 principais motivos do choro de um atleta quando é chegado o derradeiro fim da competição.

1. Refeições iguais, todos os dias… Um atleta tem restrição de calorias ou super-alimentação

Atleta de luta olímpica turca Elif Jale Yeşilırmak, e sua dieta

Atleta de luta olímpica turca Elif Jale Yeşilırmak, e sua dieta

Atletas se alimentam para a performance. Guloseimas ou todas as outras coisas que pessoas normais se alimentam jamais fazem parte da rotina de um atleta durante seu tempo de preparação. Por muitas semanas ou meses, a mesma comida, com o mesmo gosto, que em determinados momentos deixa de passar pela guela e causa ânsia de vômito. Mas vamos lá, uma garfada a mais porque daqui a 40 minutos tem mais um treino e você vai precisar da energia deste alimento.

Quando está perto de uma competição, sobretudo quando disputa-se categorias que dependem de peso, a dieta e o sofrimento apertam ainda mais. A fome vem na companhia da queda de rendimento, a fraqueza é uma balança que você precisa equilibrar a todo custo com a performance. Você precisa obter o peso necessário e também precisa manter sua marca em suas atividades.

2. Treinos repetitivos e exaustivos

diego hypolito

Alguns atletas chegam a treinar cerca de 12 horas diárias. São treinos de técnica, aprimoramento de execução de movimentos para no momento da competição atingir as melhores marcas possíveis. Os ombros e os joelhos uma hora doem. O que dizer das câimbras musculares então? São quase as melhores amigas destes atletas durante seu preparo. Uma pequena massagem para aliviar as dores e vamos lá, mais uma repetição, mais uma série de exercícios… “Isso mesmo, agora o movimento está ficando correto”, “O tiro está ficando cada vez mais preciso”. A precisão e o alto rendimento são resultados de chorar sangue nos treinos.

3. Distância da família

A rotina de um atleta de alto rendimento permite pouco contato com a família, principalmente aqueles que precisam treinar junto a um time que viaja muito ou que tenha centros de treinamento que são em outro país. O contato com a família, seja  pais, esposa/marido ou filhos acaba ficando estritamente feito por meio de mensageiros eletrônicos. A tecnologia aproximou bastante os familiares dos atletas, mas imagine há 30 anos atrás quando nada disso existia? Subir em um pódio e não lembrar dos tempos distante da família é quase impossível.

Um grande exemplo é o atleta de levantamento de peso, Matthias Steiner, da Alemanha, que perdeu sua esposa, vítima de um câncer. Mesmo com este revés ele foi para a competição, e o vídeo abaixo fala mais por mim do que qualquer outra coisa:

4. Lesões durante os treinamentos (ou durante a competição)

Ginasta Francês Samir Ait Said sendo carregado pela equipe de médicos

Ginasta Francês Samir Ait Said sendo carregado pela equipe de médicos

Talvez esta seja a pior parte de todas. Como disse no ítem 2, a rotina de exercícios de 12 horas em média leva, muitas vezes, a um estado corporal chamado overtraining. E o que é isso? Explico abaixo:

“Trata-se de um problema que ocorre quando o atleta faz mais exercícios do que seu corpo é capaz de se recuperar. Ao tentar melhorar o desempenho em treinamentos e provas, os atletas exageram no volume da atividade física sem ter o descanso adequado e escolhem uma dieta incorreta. As consequências, no entanto, vão da ordem muscular, passando por problemas nas articulações, e resultam em malefícios no sistema imunológico e no aspecto psicológico”

E este estado pode se manifestar a qualquer momento, e vimos um caso específico já nessas Olimpíadas, quando o ginasta francês Samir Ait Said fraturou a perna esquerda em um salto.

A grande luta de um atleta é driblar o overtraining, as lesões, o cansaço da rotina exaustiva. Às vezes elas acontecem e podem tirá-lo do caminho. Lembrar de tudo isso no que falarei no próximo item certamente leva qualquer atleta às lágrimas.

5. A glória, ou a derrota – O caminho da linha de chegada

Djokovic chora ao ser eliminado na primeira fase do torneio simples das Olimpíadas Rio-2016

Djokovic chora ao ser eliminado na primeira fase do torneio simples das Olimpíadas Rio-2016

Esta é a melhor parte e a que eu me inspiro mais para falar sobre. Atletas olímpicos dedicam todo seu treinamento e forças para conseguir estar nesta competição que ocorre no mundo a cada 4 anos. Estar ali competindo é uma vitória que não-atletas não conseguem mensurar. Pense um pouco comigo: Se aquele atleta está ali, quantos outros com os mesmos sonhos e anseios ficaram para trás para que ele pudesse ter aquela vaga. Ora, isso já valeria uma medalha, mesmo que simbólica!

Existe um outro problema quando se é favorito em uma modalidade, e é quando você falha e perde logo de cara. Foi o que aconteceu com o tenista nº 1 do ranking mundial Novak Djokovic, que foi eliminado logo na primeira fase do tornei simples, e chorou. Chorou por que? Pois sabia da responsabilidade como melhor do mundo em encantar aqueles que estavam ali para vê-lo. Chorou porque sabia que poderia fazer muito melhor.

Chorou, porque sabe quanto treinou, quanto ficou longe da família, quanto teve que enfrentar o desgaste físico. É uma mistura de vários sentimentos que ronda a cabeça dele neste momento.

E sobre a glória, falo sobre atletas como Michael Phelps. Que ganhou sua 19ª medalha olímpica até a criação deste texto (e tenho certeza que ganhará muitas outras). Além de ser um atleta totalmente fora da curva, é um atleta que inspira toda uma equipe a dar o melhor de sí. Talvez, esta medalha de ouro da qual eu menciono, que foi uma medalha de revezamento 4×100 tenha vindo grande parte do quando este atleta significa coletivamente para seus parceiros. A pressão de mostrar serviço aumenta, mas ela sai dos ombros quando se está em cima daquele pódio beijando a medalha.

Michael Phelps ajudou a equipe dos EUA a conquistar a medalha de ouro no revezamento 4x100m livres (Foto: AFP)

Michael Phelps ajudou a equipe dos EUA a conquistar a medalha de ouro no revezamento 4x100m livres (Foto: AFP)

Todo esforço valeu a pena.

E se você é atleta ou não, o choro da conquista valerá a pena. E você lembrará de tudo aquilo que deixou de fazer, toda distração que você não deixou te pegar, todo movimento que era errado e você o tornou certo.

Lute pela medalha de ouro da sua própria vida.

Pô, deixa um comentário aqui...