Do leitor

Individualismo: a história de Jéssica e Neide

Jéssica, é da classe C, mora em um bairro residencial, afastado do centro da cidade. Ela tem 20 anos, faz faculdade a noite e trabalha para pagá-la. Neide tem 35 anos, mora com marido e trabalha em uma empresa com um cargo de nível médio. Mora em um bairro residencial da classe B, só que próximo ao centro da cidade. Não tem muitos sonhos. Ela só quer trabalhar e voltar para a casa para assistir sua novela. Já Jéssica, quer crescer profissionalmente, ser advogada de sucesso e poder tirar férias legais todo ano quando estiver mais velha.

Em um belo dia, Jéssica consegue uma entrevista de estágio em um grande escritório de advocacia. Neste dia acordou 5 horas da manhã para poder chegar pontualmente às 9h. De sua casa até o local, viu que eram 2 horas de ônibus e trem. Programou-se para sair cedo de casa, afinal, não podia chegar atrasada. No dia anterior tinha ido dormir 1h da manhã, logo após ter chego tarde da faculdade. Colocou a melhor roupa que tinha, se maquiou para tampar suas olheiras e encheu-se de esperança.

Enquanto isso, Neide entrava no trabalho também às 9h. Naquele dia, acordou atrasada. Já eram 7:30 da manhã: “Nossa, vou ter que correr”, diz enquanto toma seu café da manhã. “Meu Deus, estou atrasada”, pensa ela enquanto toma um longo banho. Apressada, desce para a garagem, liga o carro e sai para a rua. Olha para o relógio e repara que já são 8:20, o que a faz acelerar ainda mais seu carro. “Esse trânsito vai me atrasar!”, fala enquanto passa em todos sinais amarelos que vê, fechando também os cruzamentos. Buzinas tocam, mas para Neide, a culpa dela estar com o carro atravessado no meio da avenida é do trânsito, não dela.

Em um desses cruzamentos, o ônibus do trajeto de Jéssica ficou parado, impedido pelo carro de Neide. Faltavam só mais 2 pontos para ela descer no local de destino. Se o cruzamento não estivesse fechado bem na pista destinada aos ônibus, Jéssica chegaria em 5 minutos no local da entrevista. Já são 08:40 e o carro continua ali, parado. Nenhum ônibus consegue passar, o que faz com que o trânsito naquela pista piore ainda mais. Jéssica pede desesperadamente para que o motorista a deixe descer. Infelizmente o lugar não é apropriado e ele não pode abrir a porta. Enquanto isso, Neide pensa: “vou chegar um pouquinho atrasada, mas tudo bem né?”.

Enfim, seu carro anda. Já são 08:55. Mais dois quarteirões e ela está em seu trabalho. “Ufa, 09:05! Até que não me atrasei tanto”, pensa Neide enquanto passa o cartão da empresa pela catraca.

O ônibus de Jéssica também andou, mas os resquícios do trânsito ainda afetam a via. Já são 09:10 quando ela desce no ponto e corre nervosa até o local da entrevista. São 09:15 quando Jéssica chega na recepção do prédio. Após ser liberada, sobe até o escritório de advocacia, onde a analista de Recursos Humanos a esperava para a entrevista. Infelizmente não havia mais tempo. A analista agradece a presença de Jéssica, mas informa que para aquela vaga de estágio não são permitidos atrasos, pois impontualidade significa irresponsabilidade.

Jéssica segura o choro e antes de ir embora lê o crachá no peito daquela moça. Neide de Almeida. Antes de por os pés na rua, Jéssica desaba a chorar. Como iria contar para seus pais que perdeu uma entrevista por ter sido azarada? Como faria para a pagar a mensalidade da faculdade do próximo mês?

Ainda no escritório, Neide senta à sua mesa, abre o Facebook, manda mensagens no Whatsapp, pega um cafezinho. Tudo normal naquele dia, até a vontade de chegar o fim do dia para assistir sua novela das nove.

Neides são pessoas que passam a vida prejudicando pessoas como Jéssicas. Jéssicas são pessoas que passam a vida encontrando e superando pessoas como Neides. Ainda que elas nem sequer se conheçam verdadeiramente.

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